Pontes QuinzenalVolume 3Número 6 • 31 de março de 2008

Energia: Argentina prepara-se para o inverno


A Argentina continua trabalhando intensamente para prevenir seu contínuo desabastecimento de energia durante o inverno. Para tanto, conseguiu firmar um acordo de "empréstimo de energia" com o Brasil, e tomou medidas restritivas com relação às suas exportações de gás.

Finalmente, um acordo com o Brasil

Após longas discussões sobre as quotas de gás boliviano correspondentes a cada país, Argentina e Brasil chegaram a um acordo de cooperação em matéria de energia para prevenir o desabastecimento energético na Argentina durante o próximo inverno.

O acordo não representa exatamente o que a Argentina havia solicitado ao Brasil (que o país cedesse à Argentina parte de suas quotas de gás boliviano). Essa opção foi excluída após afirmação do Presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, de que era impossível para o Brasil renunciar a qualquer molécula de gás. A Argentina, entretanto, conseguiu que o Brasil comprometesse-se a prover, sob forma de intercâmbio, entre 300 e 400 megawats de eletricidade "em caráter de emergência", para que o país possa enfrentar o inverno e superar a crise energética que afeta o país há anos.

A decisão da Presidente da Argentina, Cristina Fernández, de buscar alianças regionais - em particular com Brasil e Bolívia - para o tema energético, foi aplaudida. Tal iniciativa foi classificada por um especialista em serviços públicos e energia como "uma política energética regional em busca do tempo perdido". Tradicionalmente, a Argentina foi um grande exportador de gás, mas ao longo dos últimos anos tem tido dificuldades de abastecimento.

Restrições à exportação de gás

A carência energética argentina afetará seus vizinhos do Cone Sul e, nesse sentido, a presidente da Argentina ressaltou ser importante articular os diferentes interesses para que a integração e o intercâmbio comercial não se tornem uma doação energética. Assim, foi anunciado um aumento dos impostos à exportação de gás natural e liquefeito de petróleo.

A medida argentina também afetaria as exportações argentinas de gás ao Paraguai. A decisão preocupou o governo paraguaio, o qual estuda a possibilidade de negociar com a Secretaria de Energia da Argentina, já que esse país é seu único provedor de gás.

O Vice-Ministro de Comércio do Paraguai, Luis Villalba, foi cauteloso com relação a essa possibilidade e ressaltou que excluir o Paraguai das restrições às exportações argentinas de gás poderia ser conflitante com a normativa da Organização Mundial do Comércio.

A Bolívia é a solução para o Mercosul?

Jornais locais na Bolívia publicaram um relatório oficial que revela os planos do país para a venda de gás natural para o Paraguai e Uruguai a partir de 2014. Esse processo ocorreria por meio do Gasoduto do Nordeste, que seria construído para abastecer a Argentina.

O documento, intitulado "estratégia nacional de hidrocarbonetos", afirma que em seis anos o governo de Evo Morales contará com novas reservas, o que lhe permitirá continuar a exportar gás natural a seus maiores compradores - Brasil e Argentina - e abastecer os demais países do Mercosul - Paraguai e Uruguai.

Tradução de artigo originalmente publicado em Puentes Quincenal Vol. V No. 6, 25 mar 2008.