Pontes Quinzenal • Volume 3 • Número 9 • 13 de maio de 2008
"Soja responsável" levanta controvérsias
Os atores do mercado da soja que procuram desenvolver critérios de sustentabilidade para o setor depararam-se com uma dura resistência da parte de grupos da sociedade civil. Ambientalistas decidiram abandonar a iniciativa multi-setorial, afirmando que a expansão da produção de soja teria conseqüências ambientais e sociais terríveis e que a única solução seria reduzir o consumo nos países do Norte.
Cerca de 200 representantes da indústria da soja - dentre os quais fazendeiros, donos de moinhos, produtores de carne, atacadistas e instituições financeiras -, juntamente com organizações não-governamentais (ONGs) sociais e ambientais de todo o mundo, reuniram-se para a III Mesa Redonda Global sobre Soja Responsável (MRSR), ocorrida em 23 e 24 de abril em Buenos Aires, Argentina.
Sob o mote "Soja responsável: alimento, ração e combustível para o mundo do futuro", o encontro discutiu critérios para estabelecer meios economicamente viáveis, socialmente justos e ambientalmente sustentáveis de produzir, processar e comercializar a soja. No encerramento do evento, a Junta Executiva elaborou um esboço de documento com princípios e critérios para a produção responsável do comércio de soja, que continha um mecanismo de verificação da eficácia de tais princípios e critérios. As versões finais do documento devem ser ratificadas em maio de 2009.
Antes da reunião, alguns grupos da sociedade civil convocaram os participantes da MRSR a retirarem-se do evento, mas organizações como a WWF encorajaram todos os participantes a cooperar nas discussões. Uma semana antes do evento, a Coalizão Global pelas Florestas (CGF) - uma coalizão de ONGs e povos indígenas - havia pedido que os demais grupos da sociedade civil envolvidos no processo não comparecessem. Para Miguel Lovera, líder da CGF, o apoio das ONGs ao evento legitimaria um processo dominado por empresas multinacionais e justificaria ambientalmente a expansão da soja na América do Sul e em outras regiões, ao invés de promover padrões de consumo mais sustentáveis que eliminariam a necessidade de tal expansão.
Quais são os critérios?
Resultante da crescente demanda mundial por ração animal e impulsionada pelo aumento de consumo de carne e bioenergia, a produção de soja está em expansão. A MRSR busca a adesão de seus membros aos princípios e critérios em elaboração, de modo que a expansão na produção de soja ocorra de modo sustentável.
Os critérios e princípios estão sendo produzidos por um grupo mais restrito de participantes e estão abertos a comentários durante os períodos de consultas públicas. Eles dizem respeito a práticas empresariais responsáveis; condições de trabalho responsáveis; respeito pelo direito de propriedade rural; uso da terra em pequena escala e de modo tradicional; relações comunitárias responsáveis; sustentabilidade ambiental; utilização responsável da água e do solo; proteção da biodiversidade e das colheitas; uso responsável de produtos químicos; e estabelecimento responsável de infra-estrutura em novas áreas de cultivo.
Expansão da soja é "irresponsável", diz a sociedade civil
Diversos grupos da sociedade civil não são favoráveis à MRSR. A ONG Friends of the Earth divulgou um relatório no qual afirma que a tentativa de estabelecer esquemas de certificação para redução dos problemas ambientais e sociais causados pelo crescimento da plantação para a produção de biocombustíveis está fadada ao fracasso. Lúcia Ortiz, da Friends of the Earth Brasil, argumentou que a expansão de enormes monoculturas tende à destruição das florestas, da vegetação de tipo cerrado e da vida selvagem, aumenta os preços das terras e dos alimentos e impacta diretamente as comunidades rurais, forçadas a sair de suas terras para ceder espaço às plantações. Ortiz afirmou, ainda, que certificar latifúndios monocultores como sustentáveis seria uma maneira de enganar os consumidores internacionais e não proporcionaria melhorias aos métodos de produção.
Outro relatório, de autoria da Corporate Europe Observatory e da Rain Forest Action Network, afirma que o único papel da MRSR seria o de "pintar de verde" a indústria da soja, ao oferecer a possibilidade de falar de responsabilidade social corporativa sem que sejam providenciadas soluções para as verdadeiras vítimas da produção e expansão da soja.
Os desafios do rápido crescimento da soja
O setor da soja é um dos que crescem mais rápido na América do Sul. A área cultivada dobrou nos últimos dez anos nos principais países produtores - Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai (juntos, eles respondem por 60% da produção mundial). Espera-se que a tendência continue no futuro, uma vez que as previsões de produção de soja para 2020 giram em torno de 300 milhões de toneladas. A presente crise alimentar e o aumento da demanda por biocombustíveis aumentaram a atenção conferida à produção de commodities e seu efeito sobre o mercado.
De um lado, a produção de soja é uma grande fonte de receita, que tem gerado desenvolvimento e empregos em vários países da região. Por outro, seu cultivo extensivo e a expansão das fronteiras agrícolas geram altos custos sociais e ambientais, tais quais o desmatamento, a poluição dos cursos aquáticos e a erosão do solo. O rápido crescimento da produção de soja significa, ainda, uma ameaça para a rica biodiversidade da região.
Tradução e adaptação de artigo originalmente publicado em Bridges Trade BioRes, Vol. 8, No. 8, 02 mai. 2008.
Tesco lança estratégia para pegadas de carbono
A empresa inglesa Tesco introduziu novos selos de carbono para 20 de seus produtos sob um novo esquema piloto. A estratégia pretende ir além do simples conceito de "milhagem dos alimentos" ao considerar as emissões de carbono durante todo o ciclo de produção dos produtos selecionados.
Os primeiros 20 produtos - todos da marca Tesco - dividem-se em quatro diferentes categorias: (i) suco de laranja; (ii) batatas; (iii) detergentes de limpeza; e (iv) lâmpadas. Os novos selos indicam os gases de efeito estufa liberados durante o ciclo de vida desses produtos em termos de gramas de carbono, similares aos selos dos alimentos que indicam a quantidade de sódio ou gordura contida. Os selos foram desenvolvidos pela empresa Carbon Trust, estabelecida pelo governo britânico para ajudar o país a mover-se rumo a uma economia "pobre" em carbono, o Departamento britânico de Meio Ambiente e o Instituto Britânico Standards.
O diretor da Tesco, Terry Leahy, afirmou que ao introduzir esses novos selos, a empresa pretende dar a seus clientes a possibilidade de tomarem decisões conscientes e ambientais ao realizarem suas compras semanais.
Processo complexo
A Tesco anunciou em março de 2007 que pretendia fornecer pegadas de carbono para a totalidade de seus 70.000 produtos. O cálculo das pegadas de carbono, entretanto, é complexo e custoso e os 20 produtos escolhidos fazem parte apenas do projeto piloto. A empresa também afirmou que mais selos devem aparecer nos supermercados ao longo deste ano e ressaltou que os 20 primeiros produtos selecionados não são transportados por via aérea, já que a metodologia de cálculo para esse tipo de transporte é bastante complicada.
A iniciativa, bem recebida por alguns, foi criticada por outros, pois o conceito "gramas de carbono" ainda não é suficientemente conhecido pela maioria dos consumidores. Além disso, as informações relativas às pegadas de carbono são complicadas e perdem-se ao serem adicionadas às demais informações que o consumidor já possui. Paul Monaghan, diretor do grupo Co-operative (concorrente da Tesco), afirmou que as empresas estão mais bem preparadas para minimizar as pegadas de carbono - ao longo de toda a cadeia de fornecimento dos produtos - do que os próprios consumidores e que, portanto, a responsabilidade não deveria recair sobre esses últimos.
Além da milhagem dos alimentos
Inicialmente, os varejistas responderam às demandas dos consumidores ao indicar, para certos produtos, o uso de frete aéreo, pois as emissões de carbono dos aviões são particularmente altas. A maioria dos produtos é exportada via marítima, mas alimentos frescos e perecíveis precisam chegar ao consumidor final mais rapidamente e a via aérea é a única opção. A primeira tentativa de indicar o tipo de frete utilizado prejudicou os países em desenvolvimento (PEDs), pois esses encontraram um nicho de mercado de alto valor nos países desenvolvidos (PDs) para a exportação de frutas e legumes (por via aérea) durante o inverno no hemisfério norte. Nesse caso, os selos indicavam somente parte das pegadas de carbono - a do transporte -, ignorando as demais etapas do processo. Os exportadores que atuam em países de clima quente, geralmente produzem alimentos que apresentam menos emissões de carbono se comparados a alimentos produzidos em PDs - onde a produção de frutas e legumes fora de estação é feita em estufas altamente mecanizadas que utilizam grandes quantidades de insumos e fertilizantes ricos em carbono.
As novas iniciativas para identificação das pegadas de carbono durante todo o ciclo de vida dos produtos medem as emissões desde o campo até que o produto chegue ao prato do consumidor e levam em conta os métodos agrícolas de plantio, o tipo de processamento, a energia gasta, o solo, a distribuição e todas as demais etapas intermediárias. Como esse cálculo não é somente baseado na quantidade de "milhas percorridas", mas também na quantidade de carbono emitido durante todo o processo de produção, é menos provável que haja discriminação contra as exportações de PEDs - como ocorre no esquema de contagem de milhas.
Tradução e adaptação de artigo originalmente publicado em Bridges Trade BioRes Vol. 8, No. 8, 02 mai. 2008.