Pontes QuinzenalVolume 3Número 21 • 24 de novembro de 2008

China: pacote de investimentos busca conter desaceleração


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O pacote de investimentos anunciado em 9 de novembro pelo governo chinês trouxe perspectivas otimistas – ainda que efêmeras – à economia mundial. No total de US$ 586 bilhões, a medida corresponde a 80% dos gastos do governo chinês em 2007.
 
Com o objetivo de dar sustentação à sua economia em meio à crise financeira, o pacote define como prioritários os investimentos destinados aos setores de infra-estrutura, habitação e inovação nos próximos dois anos. Além disso, prevê uma redução de US$ 17,6 bilhões na receita tributária até 2010, devido à reforma do Imposto sobre o Valor Agregado, que entrará em vigor em 2009.
 
O anúncio do pacote surpreendeu analistas, que esperavam uma decisão econômica do governo chinês apenas em dezembro, quando a cúpula do Partido Comunista reúne-se para discutir a situação econômica do país. A desaceleração observada recentemente na economia da China, entretanto, serviu de incentivo para a antecipação da decisão.
 
“Gigante” em desaceleração
 
A China respondeu por 27% do crescimento da economia mundial no ano passado, segundo estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), intitulado Panorama da Economia Mundial. Os efeitos da crise financeira, entretanto, também chegaram ao “gigante” chinês: as exportações desaceleraram; as fábricas tiveram sua rentabilidade reduzida devido à valorização do yuan; os juros aumentaram. O relatório destaca que a economia chinesa cresceu 9% no terceiro trimestre de 2008, indicador inferior àqueles registrados nos últimos cinco anos, superiores a 10%. As projeções para os dois próximos anos variam entre 7 e 8%.
 
Nesse sentido, o pacote de investimentos é a resposta do governo chinês às pesquisas que apontam para uma retração significativa da atividade industrial no país. A cautela com que o governo chinês avalia o contexto econômico reflete-se na adoção de políticas em relação às quais se mostrava hesitante, como a redução da carga tributária das empresas e o aumento dos recursos à disposição dos bancos para empréstimos. Além disso, o Conselho de Estado da China anunciou a orientação da política monetária para uma maior liberalização, colocando-a a serviço da expansão, do emprego e do mercados.
 
Ainda que o pacote tenha sido lançado para conter a desaceleração interna, gerou-se uma forte expectativa de que a China compensará parte das perdas mundiais geradas pela recessão nos Estados Unidos da América (EUA) e Europa. Como ilustração disso, no dia seguinte ao anúncio do pacote chinês de investimentos, as ações asiáticas registraram alta: a Bolsa de Tóquio encerrou suas atividades com alta de 5,81%, e a Bolsa australiana, 1,4%. Além disso, ante a expectativa de novas obras no país – haja vista o foco em infra-estrutura –, as ações de empresas produtoras de aço, ferro e cimento devem aumentar, assim como as cotações de metais e petróleo.
 
Para o economista do Daiwa Institute of Research, de Hong Kong, Kevin Lai, “[e]sse plano é, sob todos os aspectos, grande demais para ser ignorado”, sinalizando que o pacote chinês pode contribuir para o aumento da demanda por produtos e serviços estrangeiros.
 
Para outros analistas, apesar do montante da medida do governo chinês – US$ 586 bilhões –, o estímulo não será suficiente para sustentar um forte ritmo de crescimento se constituir uma iniciativa isolada.
 
Representantes do governo chinês acreditam que o pacote de investimentos na economia doméstica trará incentivos suficientes aos esforços contra a crise global. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Qin Gang, afirmou que o melhor que a China pode fazer é manter sua economia sólida para ajudar o desenvolvimento mundial”.
 
Impactos para o Brasil
 
A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) mostrou-se reticente quanto aos efeitos positivos do pacote chinês de investimentos. Representantes da AEB avaliam que, para os exportadores brasileiros, os ganhos serão modestos, uma vez que não alterarão substancialmente o volume das exportações e importações que compõem o fluxo comercial bilateral. De acordo com a Associação, a queda observada no preço das commodities brasileiras exportadas para a China, como minério de ferro, petróleo, soja e celulose, pode resultar em um déficit de US$ 4 bilhões em 2009, o dobro do valor registrado em 2008.
 
Por outro lado, acredita-se que os efeitos domésticos do pacote possam beneficiar, em alguma medida, parceiros comerciais da China. A Suzano Papel e Celulose, uma das empresas brasileiras que tiveram suas exportações afetadas pela redução na demanda chinesa, considerou a iniciativa positiva. Para a empresa, que chegou a cortar sua produção em 30 mil toneladas, se a medida do governo chinês for bem-sucedida no âmbito interno, pode contribuir para o aumento da demanda. “O pacote de estímulo certamente ajudará a economia interna e vamos ser beneficiados. Agora, quanto isso vai afetar os resultados, nos preços e nos estoques, não sabemos”, afirmou o presidente da Suzano Papel e Celulose, Antônio Maciel.
Reportagem Equipe Pontes
 
Fontes consultadas:
 
O Estado de São Paulo. Pacote chinês vai ampliar demanda por ferro e aço. (11/11/2008).
 
Folha de São Paulo. Dados da inflação e importação apontam desaceleração chinesa. (12/11/2008).
 
Folha de São Paulo. Para Lacerda, China compensará recessão nos EUA / mercado aberto. (11/11/2008).
 
Folha de São Paulo. Exportador vê pouco ganho ao Brasil com pacote chinês. (11/11/2008).
 
Fundo Monetário Internacional. Panorama Economia Mundial. (out. 2008). Disponível em: <http//:www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2008/02/index.htm>. Acesso em: 19 nov. 2008.
 
Gazeta Mercantil. O caminho chinês para enfrentar rápido a crise. (11/11/2008).
 
Gazeta Mercantil. Pacote de medidas chinês estimula alta de ações, metais e petróleo. (11/11/2008).

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