Pontes QuinzenalVolume 2Número 5 • 21 de maio de 2007

CEPAL divulga relatório sobre investimentos estrangeiros na América Latina e Caribe em 2006


No início de maio, a Comissão Econômica da ONU para a América Latina e Caribe (CEPAL) divulgou relatório intitulado La Inversión Extranjera en América Latina y Caribe, relativo ao ano de 2006. Embora traga inúmeros dados positivos sobre o tema, o estudo aponta para a necessidade dos países da região desenvolverem uma política de investimentos mais integrada a uma estratégia de desenvolvimento sócio-econômico.

O relatório é dividido em quatro capítulos. O primeiro traça um panorama geral dos investimentos estrangeiros diretos (IEDs) na América Latina e Caribe, bem como dos investimentos diretos no exterior (IDEs) feito pelos países da região. O segundo capítulo aborda as políticas de atração de investimentos adotadas na região e analisa experiências internacionais de sucesso neste âmbito. Os capítulos 3 e 4, por sua vez, dedicam-se ao estudo de duas fontes não tradicionais de investimentos na América Latina e Caribe, mas que têm desempenhado papel relevante nesta esfera nos últimos tempos: Coréia do Sul e Portugal.

Inicialmente, o relatório ressalta o aumento dos IEDs na região entre 2006 e 2005, embora em um ritmo mais lento do que o registrado entre 2004 e 2005. Com efeito, os IEDs na América Latina e Caribe chegaram, em 2006, a US$ 72,4 bilhões - 1,5% maior do que em 2005, quando alcançaram US$ 71,3 bilhões. Entre 2004 e 2005, no entanto, o aumento foi de 8,1% (de US$ 66 bilhões para US$ 71,3 bilhões).

Apesar disso, o relatório indica uma diminuição da importância da região enquanto receptora de investimentos no mundo. Com efeito, em 2006 a região recebeu apenas 8% do total de investimentos estrangeiros - o segundo valor mais baixo dos últimos 15 anos. Além disso, região da América Latina e Caribe hoje responde por menos de 30% do total de IEDs destinados a países em desenvolvimento (PEDs) - percentual que chegou a quase 50% em 2000. Ainda, proporcionalmente ao PIB, a taxa de IEDs na América Latina é de pouco mais de 3% - menor do que os números da África e da Europa Oriental.

Segundo o relatório, os principais países receptores de IEDs na região, em 2006, foram México (US$ 19 bilhões do total investido na região), Brasil (US$ 18,8 bilhões) e Chile (US$ 8 bilhões). Proporcionalmente ao PIB, o Panamá apresenta a maior taxa de IEDs (16,4%), seguido por Trinidad e Tobago (8,4%) e Uruguai (8,3%).

Quanto aos IDEs dos países da América Latina e Caribe, o relatório evidencia que a quantia investida praticamente dobrou entre 2005 e 2006 - de US$ 20 bilhões para US$ 40 bilhões, aproximadamente. Assim como ocorre em relação aos IEDs, México, Brasil e Chile destacam-se na região. Em 2006, o Brasil investiu no exterior cerca de US$ 28 bilhões, enquanto México e Chile (segundo e terceiro principais investidores externos da região) desembolsaram US$ 3,9 bilhões e US$ 2,8 bilhões, respectivamente. Em comparação com o PIB, a taxa de IDEs do Brasil também é a maior da região (3,5%, aproximadamente), seguido de Chile (cerca de 2,5%) e Venezuela (em torno de 1,5%).

No que se refere às políticas de atração de investimentos estrangeiros, o relatório critica a posição passiva adotada pelos países da região. Segundo a CEPAL, os IEDs realizados na América Latina e Caribe ainda são orientados pelas vantagens comparativas e condições macroeconômicas estruturais inerentes aos países receptores. Este contexto - juntamente com a abundância de recursos naturais existente na região - explicaria o grande volume de IEDs destinados à exploração de recursos minerais na América Latina. Ademais, a análise dos IEDs nesta região leva em consideração apenas o montante investido. Em outras palavras, quanto maior a quantia investida, melhor seriam os IEDs.

O relatório, no entanto, indica uma tendência mundial diferente para os IEDs, mais ativa e caracterizada pela adoção de marcos regulatórios (políticos e jurídicos) mais sofisticados, que levam em consideração não apenas o montante investido, mas também a modalidade de investimento e sua conformação com a estratégia de desenvolvimento sócio-econômico do país receptor. Além disso, tal política deve permitir a coordenação entre o setor público e privado e promover o fortalecimento institucional das entidades dos países receptores ligadas à atração de investimentos estrangeiros.

Na seqüência, o relatório dedica-se ao estudo dos exemplos sul-coreano e português de IEDs, a fim de extrair possíveis lições sobre o tema para os países da América Latina e Caribe. A política de IEDs da Coréia do Sul é elogiada, uma vez que este país asiático soube integrá-la em sua estratégia de desenvolvimento. Conforme aponta o relatório, enquanto a Coréia do Sul centrava-se em uma industrialização voltada à exportação, os IEDs revelaram-se essenciais na obtenção dos insumos necessários para estimular tal processo.

Com a crise financeira de 1997, A Coréia do Sul alterou sua estratégia de desenvolvimento e passou a buscar a construção de uma sociedade do conhecimento baseada na inovação tecnológica. Neste contexto, os IEDs desempenham papel relevante, na medida em que permitem a internacionalização de empresas sul-coreanas em setores diversificados. O estudo destaca a forte presença de empresas deste país asiático no setor eletrônico e automotivo na América do Sul (LG, Samsung, Hyunday, etc.) e no setor de têxteis e vestuários na América Central.

Já no caso de Portugal, a política de IEDs possui características diferentes. Com efeito, os IEDs neste país são resultado da internacionalização de suas empresas que, em virtude do aumento da concorrência decorrente do ingresso de Portugal na União Européia, necessitavam de novos mercados para poderem competir e sobreviver.

Os IEDs de Portugal na América Latina possuem as seguintes características, apontadas pelo relatório: (i) realização em um espaço curto de tempo - o grande fluxo de investimentos portugueses para a região ocorreu em meados da década de 90; (ii) concentração de destinatários - a grande maioria de tais investimentos foi destinada ao Brasil; (iii) concentração de setores - telecomunicações, varejo e eletricidade foram os principais contemplados pelos IEDs portugueses na América Latina; e (iv) concentração de empresas - Portugal Telecom, Grupo Sonae e Energias de Portugal foram os principais investidores portugueses na região. Após o forte investimento português no Brasil no final da década de 90, em decorrência da privatização de serviços públicos de infra-estrutura promovida pelo governo brasileiro, os índices dos últimos anos revelam um quadro de desinvestimento (ou seja, a quantia investida no Brasil por empresas portuguesas é menor do que o montante investido no Brasil que retorna para Portugal).

Por fim, o estudo apresenta três conclusões finais. A primeira é a de que, ao mesmo tempo em que houve uma estabilização no nível de IEDs na região, houve um aumento significativo de IDEs dos países da América Latina e Caribe - o que indicaria que a região tornou-se um participante mais ativo do processo de globalização. A segunda conclusão é a de que a participação da América Latina no número total de IEDs diminuiu - fato que decorre, dentre outros fatores, da política passiva de atração de investimentos praticada pelos países da região. A terceira conclusão refere-se ao fato de que políticas de atração de investimentos devem ser mais ativas, priorizarem modalidades de investimentos e fontes não tradicionais - como Coréia do Sul e Portugal - e, sobretudo, estarem integradas a uma estratégia de desenvolvimento sócio-econômico.

O relatório encontra-se disponível para acesso em: <http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/3/28393/IE2006Preliminar.pdf>. Para consultar outras publicações da CEPAL sobre a região, acesse: <http://www.eclac.cl/publicaciones/>.

Reportagem Equipe Pontes

Fontes consultadas:

CEPAL. La Inversión Extranjera en América Latina y Caribe. Disponível em: <http://www.eclac.cl/publicaciones/xml/3/28393/IE2006Preliminar.pdf>. Acesso em: 11 maio 2007.